Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Cuba e as monumentais mentiras dos EUA
Publicado por
em 9 de Janeiro de 2026 (original aqui)
As mentiras mais mirabolantes para justificar as suas aventuras imperiais são norma comum em Washington. Não importa se o governante de turno é democrata ou republicano (é como dizer: Coca-Cola ou Pepsi-Cola: é a mesma “coisa” …, por expressá-lo sem palavrões), suas políticas de ingerência não variam. Ao longo da história, a lista de mentiras absurdas é interminável, mas em todos os casos, não importa o grau de absurdo em jogo, elas parecem funcionais para você.
Começando com Pearl Harbor, o que justificou para os EUA a entrada aberta na Segunda Guerra Mundial, o descaramento da sua narrativa não tem nome:
– Conter o comunismo internacional, na Guatemala (1954), Chile (1973), Granada (1983), Plano Condor, no cone sul da América Latina (a partir de 1975).
– Defender-se de ataques militares, por exemplo, diante da possível invasão sandinista ao Texas (sic) nos anos 80, criando assim os Contra.
– Promoção da democracia e dos direitos humanos, no Panamá (1989), nos Balcãs (durante os anos 90), chegando-se ao absurdo irracional de realizar bombardeios “humanitários” na desintegrada Jugoslávia.
– Luta contra o terrorismo, a partir da queda (tudo indica que autogerada) das Torres Gémeas em Nova Yorque, atacando o Afeganistão (2001), o Iraque e suas supostas armas de destruição em massa (2003), a Líbia (2011).
– Combate ao narcotráfico, Plano Colômbia, rebatizado Patriota (a partir de 2000) e a recente intervenção na Venezuela com o sequestro do presidente Nicolás Maduro.
Cada ação político-militar impulsionada pela Casa Branca, encoberta ou aberta, sempre a favor das suas grandes empresas, teve como justificação alguma patranha, é claro incrível, mas vendida pelos meios de comunicação comerciais como verdades inquestionáveis. A máxima do nazi Goebbels de “mentir e mentir incansavelmente” parece dar bons resultados, porque essas falsidades tornam-se as “verdades” que o Império precisa apresentar para se justificar.
Com Cuba acontece algo especial: não busca fazer cair a revolução porque ali não há recursos para roubar nem para defender interesses empresariais estado-unidenses. Ataca-a há mais de seis décadas porque a ilha é um mau exemplo. Um exemplo de dignidade e soberania, que construiu um modelo socialista nos barbas do Império, e que não se curvou nestes longos anos de ataques vários, com um miserável bloqueio que é repudiado por meio mundo, mas que não cessa, e que agora se aprofunda.
Depois de ter ensaiado intermináveis recursos para fazer cair o processo cubano, agora o atual mandatário do império, Donald Trump, vê na revolução uma “ameaça incomum e extraordinária contra a segurança nacional e a política externa dos Estados Unidos” pelo seu suposto apoio a grupos terroristas que conspiram conta a potência do norte, pelo que impulsiona um embargo petrolífero e um descomunal ajustamento do bloqueio, impedindo aos países da região continuar a manter nos seus territórios as Brigadas Médicas Cubanas, pelas quais os governos das nações beneficiadas pagam uma quantia a Havana. Este feroz recrudescimento do bloqueio tem características de genocídio, de delito de lesa humanidade, pura e simplesmente. Como o promove a principal potência capitalista do mundo, ninguém ousa questioná-la, exceto China e Rússia.
Vale isto como comentário marginal: terminada a Segunda Guerra Mundial, da qual os Estados Unidos, junto com os Aliados, se sentiram vencedores, puderam sentar no banco dos réus os hierarcas nazis no histórico julgamento de Nuremberg por crimes contra a humanidade. Mas ninguém sentou Washington lá por ter lançado bombas atómicas sobre civis não combatentes no Japão. A história é escrita pelos vencedores, sem dúvida. Agora, com o seu discurso omnipotente, a classe dominante dos Estados Unidos, representada por este impetuoso cowboy de filme hollywoodense, sente-se com toda a arrogância para tentar subjugar um pequeno e pacífico país como Cuba. Até quando estas injustiças?
Com esta chantagem que agora vemos, a Casa Branca – isto não é uma “loucura” de Trump, é uma política de Estado prologada desde os inícios da revolução – o procura é levar à asfixia total o povo cubano, tentando assim a submissão do governo e uma explosão social, apontando a acender uma revolta popular que termine com a experiência socialista.
Trump, com o seu peculiar estilo de valentão arrogante, tendo tirado a máscara de “defesa da liberdade e da democracia” com a qual administrações anteriores da Casa Branca se maquilhavam, diz sem ambiguidades: “este hemisfério é nosso”, referindo-se à América Latina, marcando assim o território “próprio” diante do avanço da China e da Rússia. Em Cuba não há recursos para roubar: há a dignidade de uma nação que produziu uma revolução socialista há 67 anos e que, apesar de terríveis dificuldades, continua sendo uma referência e defendendo um modelo não-capitalista!
O presidente Trump agora diz que Cuba quer dialogar. Diálogo sob chantagem, sob pressão, não é diálogo: é paródia de diálogo. “Cuba está disposta a um diálogo com os Estados Unidos (.) sem pressões, sem pré-condicionamentos, numa posição de iguais, numa posição de respeito da nossa soberania, da nossa independência, da nossa autodeterminação, sem ingerência nos nossos assuntos internos”, disse o presidente da ilha, Miguel Díaz-Canel.
O socialismo não fracassou em Cuba; estão a asfixiar o país de um modo monstruoso, por isso procura-se tornar a situação atual catastrófica. Se a imprensa capitalista mostra os apagões, as dificuldades no dia-a-dia, os penosos inconvenientes do dia a dia para a sobrevivência na ilha, tudo isso se exagera muito interessadamente para mostrar a inviabilidade do modelo socialista. Mas o verdadeiro fracasso está na ética imperial, que continua a sentir que tem o direito pretensamente divino de impor as suas regras a todo o planeta. Esse é um fracasso como projeto humano: a sociedade global não pode ser governada pelos desejos de um grupo poderoso que decide o destino da humanidade de acordo com os seus próprios interesses. Aí está o fracasso maiúsculo!
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O autor: Marcelo Colussi é um autor argentino, residente desde há 25 anos na Guatemala. Politólogo, catedrático universitário e investigador social. Viveu e trabalhou em vários países latino-americanos: Nicarágua durante a Revolução Sandinista, El Salvador, Venezuela no marco da Revolução Bolivariana, sempre no âmbito de programas sociais e direitos humanos, e ao mesmo tempo, promovendo a prática psicanalítica. Escreve regularmente em meios eletrónicos alternativos. Ele também se interessou pela literatura (contos), com vários prémios conquistados e cinco livros publicados: Nosotros, los mediocres, Cuentos para olvidar, Historias dulces color de rosa, Historias insufribles e Cuentos de clorofila..


